A vida pelo juiz amigo Adolfo José da Abadia
Em outro momento da história de Quirinópolis, provavelmente no ano de 1924, o senhor Adolfo José da Abadia, na condição de juiz distrital, presidia eleições que na época se realizavam. O juiz era a maior e mais respeitada autoridade do lugar. Além disso, tratava-se de um pioneiro, um homem que muito empreendia nessa terra, como agropecuarista e comerciante, dono da Fazenda Engenho da Serra, onde criava gado e produzia o açúcar, que era comercializado na região. Além disso, foi colega do governador Pedro Ludovico, desde a época de estudos no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro.
Logo pela manhã o juiz foi avisado, que José Veloso de Matos, um perigoso pistoleiro conhecido por Veloso, por fatos até hoje não bem esclarecidos, laconicamente revelados como oriundos de um momento de desinteligência de Adolfo, encontrava-se nas imediações de sua casa, com a intenção de o exterminar.
Foi aí que, por seu destemor, Sebastião Meia Légua foi chamado às pressas, pelo próprio juiz, para dar um jeito no valente Veloso. Sem saída, por ser amigo do juiz, aceitou a missão. Após encontrar e ouvir o fora da lei, convidou-o para juntos voltarem para a região das Sete Lagoas, onde ambos residiam, convencendo-o a evitar maiores complicações, naquele dia de eleição.
A poucos quilômetros da cidade, em uma passagem no Córrego Cruzeiro, Veloso se atrasou, arrancou de sua arma e detonou-a, atingindo pelas costas o seu acompanhante. Ferido na coluna, caiu sob águas do córrego e, já sem forças, Sebastião pediu que não o matasse pelas costas, quando Veloso, virando-o, explicou suas razões, qual era uma ação por vingança.
Soube-se depois, que há anos passados, em uma festa na casa de José Vicente, morador do Paredão, um amigo e parceiro de Sebastião Meia Légua, por nome Orozimbo Mesquita, tentou matar a tiros o Veloso, que alvejado, teve orelha e face perfuradas por uma bala.
O incidente ocorreu porque Veloso, que acabava de ali chegar na festa, exigiu que Meia Légua tocasse um tango, alegando que queria dançar, o que de fato fez, com uma carabina a tiracolo, mal disfarçada sob uma longa capa. Uma mulher desquitada, destemida e amiga do músico, conhecida por América Teixeira, interveio e pediu que o Sebastião tocasse outra música, uma chasquenta, no que foi prontamente atendida. A divergência se tornou evidente, quando Veloso deu vários tiros debaixo da dançarina, causando enorme correria e um conflito entre ele e Meia Légua, que, impossibilitado de se movimentar, com uma contusão na perna, então, pediu ao seu amigo Orozimbo dar cabo ao desordeiro.
Após matar o Sebastião Meia Légua, Veloso fugiu para a fazenda do Coronel Jacintho Honório da Silva, amigo do juiz e da família da vítima, onde solicitou um almoço. Disse que não queria de graça, pois pagaria com o revólve da fera das Sete Lagoas que tinha acabado de matar. Conta-se que o jov em Joaquim Quirino, ali presentge pegou uma arma para matar o Veloso, mas foi dissuadido pela esposa do coronel. Daí, Veloso dirigiu-se para a referida região, onde esteve escondido por alguns dias.
Forte esquema policial foi montado, por iniciativa do influente Coronel Antônio Rodrigues Pereira, sogro do juiz, quando soube que o pistoleiro Veloso, que acabava de matar Meia Légua, tinha sido contratado por alguém, para matar seu próprio genro. As operações policiais ficaram a cargo do delegado de polícia de Rio Verde, Catulino Viegas, que foi especialmente contratado para dar solução ao caso. Acossado pelos policiais, sob o comando do Tenente João Ferreira, o criminoso fugiu para as proximidades da Ouroana,escondendo-se na fazenda de Atagiba Jaime, parente do intendente Frederico Gonzaga Jaime, portanto uma pessoa influente em Rio Verde. Daí fugiu para o município de Jataí, onde foi capturado, em seu esconderijo, quando ainda dormia. Contido, tentou fugir, mas foi atingido por tiros dos policiais.
Segundo o relato de populares, que o temiam, Veloso era tido também como um grande feiticeiro. Ele era capaz de sumir e aparecer de qualquer lugar. Na dúvida, para que o mesmo tivesse fim, os policiais crivaram-no de balas, mas foi preciso que o informante, José Bento, que os ajudava em sua perseguição, pois conhecia o desenho dos cascos de cavalo do criminoso, contasse que o mesmo possuía, implantado em suas costas, uma imagem de Santo Antônio, que lhe dava proteção. Assim, decidiram arrancá-la e, emseguida, cortar-lhe o pescoço.
Devido à distância e as dificuldades de traslado à época, ali foi enterrado. A pele de seu rosto e sua orelha, marcados por velhas cicatrizes, foram devolvidos, com um bilhete, informando que "o touro foi abatido próximo a Jataí", e entregues ao Cel. Antônio Rodrigues Pereira, que ao conferir as provas, deu uma grande gargalhada.
Este episódio, de forma resumida, foi lembrado no livro de memórias do Dr. PedroLudovico Teixeira, que como médico estava no povoado Capelinha, cuidando da saúde do Coronel, a pedido de seu amigo Adolfo, quando os portadores chegaram, com a prova da missão cumprida. Ao perguntar-lhe o motivo da grande alegria, o Coronel disse: livreimeu genro da morte certa, não entrando em pormenores.
O corpo de Sebastião Ovídio Ribeiro teria sido enterrado em um pequeno cemitério nas proximidades da travessia do Córrego Capelinha.
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